Pluto

IMG_20170928_210831_304[1]Ai ai esses humanos.
As vezes é até engraçado
Quando estes jogam-me algo
E esperam que eu busque faceiro
Algo que se quer eu senti o cheiro.
Como será que eles enxergam?
Seus focinhos curtos não tocam as coisas.
Não entendo como não congelam
Sendo assim, nus
E sem pelos.
As vezes os vejo com peles novas
Juro que já pensei que fossem da mesma espécie
Das cobras.
Dentro de sua enorme casinha
Eles acariciam um gato
Como se fosse da família.
Ainda insistem em me insultar
Dizendo que eu a quero matar
Calúnia!
Difamam minha honra e minha fidelidade com essa afirmação.
Só quero brincar com ela, com todos,
O tempo todo.
Mas ela parece querer fugir
E ainda tentar rosnar ( a sua maneira) pra mim.
Petulante
Entre meus dentes cabe duas vezes a três vezes
O teu tamanho.
Mas dentro de mim
E entre meus pelos negros
Não há espaço para crescer nem florescer
Nada que não seja amor.
Meus humanos percebem o quanto os amo!
Eu pulo, lambo,
Corro,
Me jogo.
Impesso que eles saiam
Por que a saudade me mata
E nunca sei se eles voltarão.
Mas sempre voltam
E minha alegria é tanta
Que até me apelidaram
De bobão.
Na verdade, nem sei o que significa
Mas a pronúncia é seguida
De afago e carinho
E por mais que eles não entendam meus latidos
Entendem meu amor.

  • Rodrigo Pilat
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Anos luz

Sei que tua pele, noite após noite, felinamente

Inspira a noite

A se permanecer

Eternamente.

A lua

Se pudesse

Desceria de seu pedestal

Nua e crua

Pra te sentir na pele.

Tal feito seria,

Que certamente se perderia

Em sua própria órbita.

 

No momento, a lua é mais próxima de ti

Do que tu és de mim.

Mesmo morando no mesmo CEP

Já algum tempo que este porto deixou de ser alegre.

Vou construir um foguete

Pra tentar te alcançar.

Não quero te trazer pra terra

Só quero habitar tua órbita.

Por mais que haja meteoros

Não me importo de ser acertado.

Que me acertem. Que me transformem em estilhaços!

Assim eu caio,

Despenco

E acabo dentro

Do intimo do teu planeta.

Faço-me em cacos

E me espalho.

Posso me fragmentar inteiro

Só pra ser percebido

E me quebro em mil pedaços

Pra receber teus cuidados.

 

Quantas galáxias existem nesse momento

No espaço, vulgo vácuo, entre os nossos peitos?

À quantos versos estamos de nos rimar?

Já faz quanto tempo desde o ultimo “eu te amo”?

Estamos nos tornando poeira estelar

Onde antes, éramos estrela

Em densa ascensão.

Nas noites, em meio aos teus amantes,

Lembras-se das estrelas,

Dos poemas

Ou apenas dos copos

Que vêm e vão

Pela tua mão?

No momento que o toque da lua

Causa tesão na tua pele nua

Tu perde a direção da rua

Teus caminhos se entortam

E até o copo que beija teus lábios

Te conhece melhor que meus olhos

Que te passeiam só

De vez em quando.

Que triste ver que não apenas água

Nem versos, poemas

São o bastante pra manter

O jardim que, tão belo, surgiu

Quando eu abri meus olhos

Pra te ver.

Sinto inveja até do sereno que te molha

E dos gatos que se entrelaçam

Nas tuas pernas

Nas escadarias da tua casa.

 

– Rodrigo Pilat 

Memórias do trem

Eu te digo.
Juro de pé junto!
Não to mentindo,
To sentindo
Saudade do beijo úmido
E de escutar teu sussurro.
De ir
até a estação do metro
E não ter vontade de partir.
Saudade dos dias que as horas voavam
E nós ali, sentados
Falando dos planetas, dos astros
Nossas bocas se namoram pelo canto dos olhos.

A gente até tenta ser discreto
Ou melhor, tentava
Mas não dava.
Resistir ao teu beijo é sacanagem
Pior ainda é agora
Que já tive a prova
E tenho que me contentar com as memórias.
Por mais que eu fale tanto de filosofia
Tu, é bem mais prática na vida
Enquanto eu falo
Tu pratica.
Meu sol, minha pequena
Eu sei, é clichê.
Não te escondo o que penso
E te acho bem “fresca”
Mas é assim, amo teu jeito
Amo teu riso
Tuas cólicas de risada
E overdose de açaí
Tudo tão bom!
Mas, de tão bom, desconfiei
E, no que era claro, me perdi
Porém entendi
Que a bagunça aqui
Tomou conta de mim

Te digo que até ciúmes senti
Ou melhor, ainda sinto
Então não procuro, não vejo
Não tento.
Em poesia desabafo
Chovo, viro vento
Sópro, caio como sereno
Mudo, escrevo.
Sentença do medo
Penumbra da luz da vela
Aqui, tudo é sombra
E a chama fraca não ilumina nada.
Escondem algumas lágrimas
Suposições vagas
Hoje, lembrar de ti trás uma sensação amarga.
Minha boca permanece fechada
Quem sabe pra espantar o gosto da magoa
Tentando recuperar na memória
(Não que tenha esquecido; seria impossível)
E fazer de novo voltar o gosto vivo
Do teu perfume de jabuticaba

Só faltou escrever teu nome nesse texto
Envelopar e mandar no teu endereço
Não sei onde tu mora
Mas sei parte do caminho
Me espera na estação, é pertinho
Nesse dia frio
Eu levo poesia, chocolate e vinho.

  • Rodrigo Pilat

O jardim dos girassóis imortais

Oh jardim de girassóis imortais
Me digam, baixinho
Quem é está guardiã que rega todos vocês?

– oh poeta, se queres tanto saber quem és ela
À de nos contar o por que.
Esse mundo não é feito só de pétalas
E dos homens
Já vimos muito mais dor
Que amor

Lhes confesso em sinceridade
Com toda a minha humildade
Venho até aqui sem dor, sem flor.
Venho sem maldade, sem vaidade.
Só trago aquilo que carrego
Não importa para onde vou.
Trago meus versos
E, para a sua guardiã
Trago doses de uma poesia
Nunca antes vista, nunca antes descrita;
Não dessa forma, não desse jeito.
Me digam, eu suplico
Não me deixem ir sem saber
E tendo que carregar
O dobro de poesia
De quando eu cheguei.
Por mais bela que seja
Poesia pesa
E pede pra voar do peito
Como o gato a namorar o pássaro
Do alto da sacada.

– Nós vos dizemos em certeza
Os poetas vivem menos de amor
E mais de tristeza.
Quem nos garante
Que no meio desse teu brilho
Não há escondido, bem mais vívido
Um lugar frio e gélido
Do que este lugar quente
Que vós nos mostra?
Como queres que arrisquemos
Entregar assim, sem certeza alguma
O nome da nossa guardiã
Que desde os primeiros tempos; os primeiros brotos
Nos fez, de curtos girassóis
Agora, imortais
Em vida e em brilho
Nunca antes visto.

Como posso eu ameaçar quem me transformou de cativo em viajante?
Foi eu ver o cuidado que ela tem
Para com cada um de vocês
Que quis eu ser girassol
Para atrair o olhar
Da tão bela guardiã.
Então viajei assim que ela me libertou
Voei até onde nenhum outro ser jamais chegou.
Aprendi a fazer das lágrimas, flor
Dos prantos, versos
E da tristeza, alegria.
Mas tudo se tornou vazio
E eu entendi que a verdadeira poesia
É de toda forma, um rio
Que nasce tranquilo
Do jardim de onde agora, debatemos.
Sua guardiã faz jorrar poesia
Para vos regar
Por isso são imortais.

– oh poeta! Tu nos assusta
Pois muitos por aqui perambulam
Vazios, como folhas secas
Vem e vão com o vento.
Mas nunca ficam, sempre se desmancham
Não és o primeiro que te encanta
E quase todo dia
Por aqui pelo jardim passam loucos
Atraídos pela imortalidade
De nós, os girassóis.
Mas ninguém até hoje foi capaz
De ver que, não é água que nos rega.
E sim, os versos de Solara

 

  • Rodrigo Pilat

Amarga(eterna)mente

No meu profundo desespero
Tu deste-me doses de salvação.
Devo te culpar?
Encheu-me de brilho no olhar
E agora
Nem atende o celular.
Olhou meus cadernos
Tocou meus versos
Ouviu a minha voz à te recitar.
Então o vento soprou
A lua trocou
Houve um eclipse solar.
Os girassóis se fecharam
O aroma foi aniquilado.
Até as abelhas cessaram seu trabalho.
Tua voz
Antes dita cheia de alegria
Hoje se faz como aste
E se crava em baixo das minhas unhas.
É como deitar sobre um colchão de agulhas
Como respirar ácido
E mergulhar o corpo em água fervente.
Antes éramos
O que hoje já esquecemos.
Entre os lábios e os beijos
As mordidas e as marcas
Do que adianta uma noite ardente
Se pela manhã, acordo e nem te vejo.
Tua presença, hora bênção
Agora se faz agonia
Tua voz soa como navalhas na minha mente.
Na minha boca
Reina o gosto do sangue
Teu tapa rasgou muito mais que meus lábios.
No meu rosto, tatuado agora
Teu dedos
Em marcas vermelhas
Onde antes
Só havia a sensação do teu beijo.
Se tuas palavras hoje são navalhas
Teu silêncio são estilhaços
De vidro
Afiado
A ponto de rasgar minhas qualidades
E escancarar meus pecados (Dos quais sou recheado).
Tocando meu peito
Antes teu toque de algodão
Arrepiava cada fio do meu corpo
Hoje desferem uma descarga elétrica;
Causam-me convulsão.
Como choque térmico
O frio das tuas mãos repudia meu corpo
E tuas pernas desataram o nó
Que fazíamos ao deitar.
É triste sentir
Da galáxia que havia aqui
Esse buraco negro
Nada vai deixar.

  • Rodrigo Pilat

 

 

Introversão

Tenho síndrome de solidão.
Espaços recheados; entupidos de vazio
Me sufocam.
Sou claustrofóbico. As superficialidades me assustam.
Penso, repenso, esqueço.
Ser; sou, sei. Verso, reverso, reviro
E no profundo do abismo ao qual procuro
Acho fragmentos do que um dia atirei aqui para baixo.
Hoje, em cacos
O que ontem era inteiro.
Hoje, pedaços
Que constituem lamento.
Ainda hoje, sorrisos
Pois descobri que é verdadeiro
A luz que agora, me preenche.
Meu abismo transbordando de profundezas;
Tais tantas que me cospem para fora
O barulho, de todos os lados, me atormenta.
Meus ouvidos já desconhecem o silêncio.
Adoeço pela falta de amor
Sinto muito pela falta de afeto
Sinto mais ainda pela falta de gratidão.
Blindo. Respiro, abstraio.
Grito, suspiro, peso.
Perco.

Demasiado poeta

As luzes da minha rua piscam.
Sou eu, a penumbra
E o que nela habita
(Também me habita).

Não caibo
No espaço quadrado
Do meu ser.
Sou demasiado
Pequeno
Para me conter.
Sou suspiro de tornado;
Um punhado
Do que não cabe no mundo.
Um mundo
Onde pulsos cortados
Não sangram flores.
Onde o aroma
É de morte
E não de pólen.

Nas cicatrizes,
Hieróglifos do corpo,
Tenho meus dias tatuados.
Minha alma carrega marcas mais profundas.

Compreendo os olhos que custam à abrir ao acordar.
Enxergam quando preferiam estar cegos.
Tanto tentam que alguma hora
O fazem.
Olhos abertos não significam
Boa visão.
E nem a boca que muito fala
É sábia.
As boas coisas
São administradas em pequenas doses.
Coitados daqueles que sofrem de abstinência.

Garimpo em rios poluídos,
Fétidos.
Relatos em um pequeno
Retrato
Cuspido.
Aqui não se pode mais ver
Nada além desse cinza.
O verde fugiu-me da memória
E o vermelho só vejo no sangue.
Sobreviver não é motivo de glória.
Poesia é uma arma
Capaz de fazer
Desaparecer
Um pouco desse cinza.
Poesia é a vida
Onde não há água
Ou comida.
É o perfume
Longe das flores.
São as cores
Vistas até pelos cegos.
É o veneno do ego
Poesia é semente
Antídoto para mentira,
Escudo dos meus dias.
Nuvem que trás a chuva
Cor que me faz, de alegria
Derramar lágrimas.
É a sombra, o sol, o frio e o calor.
Conhece meus gostos
Meus pontos fracos
Lê meus gestos
Decorou meus trejeitos
Até os tons do meu suspiro.
Ufa!
Ainda bem que te tenho
Nada seria da minha vida
Sem poesia.